segunda-feira, 13 de abril de 2020

DIA 27:
Hoje a rotina iniciou com as aulas da Isabelle. Ela teve aula de Língua Portuguesa e Língua Inglesa. Na verdade, todos os dias tem aula de Língua Inglesa, pois a escola dela trabalha com ensino bilíngue. Assim, desde que iniciou a quarentena em nosso estado, tenho que me desdobrar em dar aulas para ela e cuidar das minhas atividades, que como publiquei em posts anteriores, iniciei de férias, mas já estou na ativa, fazendo trabalho remoto. E claro que, além desse, ainda tem o trabalho doméstico: cozinhar, limpar, lavar e etc.
Essa é minha realidade (hoje), é a de muitos, mas não da maioria dos brasileiros. Pois como muito já se disse: infelizmente, estamos atravessando a mesma tempestade, mas não estamos no mesmo barco!
Então, como Socióloga e Antropóloga não posso me furtar a reflexão de que a pandemia do novocoronavirus só aprofundou as desigualdades sociais. Com esse novo formato de educação à distância, milhares de crianças estão confinadas, tendo aulas virtuais em casa, outras milhares de crianças, em número bem maior, não dispõem de computadores, nem internet, e ainda lhes faltam o principal que é o alimento em suas mesas. Com as aulas suspensas em suas escolas, muitas não estão em casas cumprindo o isolamento social, mas nas ruas, brincando, ajudando seus pais no trabalho informal, retrato recorrente nas periferias de nossas cidades.
Essa realidade me é muito próxima e familiar, pois vivi parte da minha vida na periferia de Belém. Senti na pele as dificuldades sociais e econômicas, que hoje passam muitos brasileiros. Lembro-me dos quilometros que andávamos a pé para ir à escola, pois não se tinha dinheiro para pagar uma passagem em transporte coletivo. O pouco dinheiro que conseguíamos, mal dava para fazermos duas refeições diárias.
Foi diante dessa realidade, que decidi que um dia mudaria a minha condição (e da minha família), por meu próprio esforço, estudando dia e noite... É claro que isso só foi possível graças à existência da escola pública e da universidade pública. E foi um longo caminho percorrido... com muita persistência, abdicações, lágrimas... e posso dizer, não foi fácil chegar até aqui, mas cada conquista, cada sonho realizado, tem peso de ouro para mim.
Então, quando me perguntam sobre a realidade das periferias de nossa cidade, não preciso ir in loco, fazer "trabalho de campo" para poder escrever, sei por experiência, assim como o nativo é o melhor relator da sua cultura, pois o dá em primeira mão, como nos diria Clifford Geertz.
Agora, com a crise, as escolas tiveram que fechar suas portas. As particulares adotaram modernos sistemas de educação remota, mas e as escolas públicas? E seu público? Como ter acesso as aulas à distância? E ainda acrescento mais uma questão, entre tantas outras que assaltam os educadores, sobretudo os mais comprometidos com seu "métier": o que, de fato, nós educadores podemos fazer para AJUDAR nesse tempo tão austero?


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