terça-feira, 31 de março de 2020

DIA 14:
Conforme os dias passam me preocupo mais com os impactos sociais e econômicos que essa crise no trará. E nessa disputa entre os que defendem o isolamento horizonal e o isolamento vestical (apenas grupos de risco), tenho procurado analisar os dois lados. Sei que o tão sonhado objetivo de Malinowski de "captar o ponto de vista do nativo" foi refutado pela escola interpretativista de Clifford Geertz, mas me pego querendo entender o ponto de vista de ambos os lados.
Hoje li um artigo do Dr. Carlos Adriano Ferraz, filósofo com Post Doc na Universidade de Nova York e que faz a defesa do isolamento vertical, pois entende que hoje vivemos o isolamento social, mas amanhã será o caos social. Uma das coisas que ele coloca é que as pessoas que estão defendendo a bandeira do "fique em casa" estão confortáveis, pois não foram afetados pela economia, dentre eles servidores públicos, políticos, professores, juristas, que estão com seus salários garantidos.
Ele também chama atenção para o fato de muitos não conseguirem se colocar no lugar dos que tem que ganhar o sustento todos os dias. Acrescentou que o isolamento suspendeu quase toda atividade econômica do país e que há mortes que são "invisíveis" que não estão mais sendo computadas em detrimento do novo coronavirus.
Minha opinião sobre isso, como estudiosa e professora do tema "desigualdades sociais", é que a pobreza, a fome e a miséria tem ceifado a vida de milhares de brasileiros todos os anos e, parece que a sociedade brasileira estava bem confortável com isso (sobretudo os empresários). Os últimos dados do Ministério da saúde registraram que, por ano, mais de 5 mil pessoas morreram por desnutrição e fome crônica, o que dá em média mais de 15 pessoas mortas por dia. Só nos últimos 10 anos foram 63 mil mortes, segundo esse mesmo Ministério.
Esses dados revelam um contracenso, considerando que o Brasil é o terceiro maior exportador de produtos agrícolas do mundo e um dos principais produtores de alimentos do mundo. Infelizmente, nosso país ocupa a sétima posição dentre os países mais desiguais do mundo, segundo último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado final de 2019, ficando atrás apenas de nações do continente africano. Mas essa face foi ocultada dos discursos salvacionistas da economia brasileira.
Penso que independente do rumo que tomemos, e se vamos conseguir sair "vivos" ao final, já estamos longe da praia, então não tem como voltar (atrás). Ainda assim, estou feliz, que mesmo que se tenha cometido um erro, entre a economia e a vida, pelo menos dessa vez se escolheu a VIDA.

segunda-feira, 30 de março de 2020

DIA 13:
Hoje fiquei me perguntando sobre os efeitos do isolamento na vida atual e futura das crianças (e também dos adultos). Qual impacto emocional desse confinamento? Uma parte das crianças teve que se adaptar a uma nova rotina de estudos e provas, só que tudo isso, restrito a poucos metros quadrados de uma casa ou apartamento.
Essa é a rotina vivida hoje pela Isabelle (9 anos), minha filha, que estava com período de provas agendadas, em sua escola, para uma semana após o início do isolamento. Eis que agora, além dos deveres, revisões ela está fazendo prova on line. Tive que ensiná-la a manusear um computador para que ela tivesse mais autonomia para preencher os formulários com as questões.
Todos os dias, os professores encaminham as tarefas do dia, links para vídeo aulas, links para provas e etc. Sobra pouco tempo para brincar. O prédio interditou todos espaços comuns, de lazer, para evitar aglomerações. E mesmo, foi feita a recomendação que os condôminos permaneçam dentro de suas unidades como forma de prevenção. Então, Isabelle, além de permanecer em casa, não pode brincar com suas amiguinhas do prédio, pois o isolamento está sendo levado a sério, pelo menos aqui!
Ainda que eu tente dosar as atividades, para incluir o lazer e trabalhar o equilíbrio emocional, sobretudo da minha menina, durante esse período, tem sido quase impossível diante da quantidade de atividades que ela recebe para fazer todos os dias! Penso que as escolas estão mais preocupadas em garantir o conteúdo e dias letivos do que com a saúde mental de nossas crianças.
É em meio a essa pandemia que volto a fazer a pergunta: que tipo de alunos queremos formar? Eu prefiria dizer que estaríamos num esforço conjunto para formar alunos autônomos, seguros de si, menos egoístas, mais humanos, desprendidos de bens materiais e livres das "caixinhas" que a sociedade tenta colocá-los. Mas, infelizmente estamos longe disso!
A realidade vivida hoje pela Isabelle, é de um percentual pequeno da população brasileira, pois como sabemos, a maioria das crianças não possuem computadores em casa, nem internet, estudam em escolas públicas, que no momento estão com as portas fechadas. O governo ainda vem estudando uma maneira de realizar o ensino à distância, diante da tamanha disparidade de renda das milhares de famílias brasileiras. Muitas dessas crianças não estão resguardadas em suas casas, mas correndo e brincando pelas periferias e favelas das cidades como se o virus nunca fosse chegar por lá.

domingo, 29 de março de 2020

DIA 12:
Como a história se lembrará de vocês? Vivemos uma oportunidade única. E cada um pode fazer a diferença, mas quando tudo isso passar, o que teremos deixado para posteridade? Queremos ser lembrados como alguém que ficou em casa, só reclamando de política, religião ou das atividades à distância desenvolvidas pelas escolas e universidades? Ou gravaremos o nosso nome na história, fazendo algo de valor pela e para humanidade?
Não há muito tempo... é chegada a hora de ir para o front! A vida lhe espera!

sábado, 28 de março de 2020

DIA 11:
Nesses onze dias em que passei a ficar em casa, desde que meu estado adotou medida de "isolamento social preventivo" para combater o novo coronavirus, tenho procurado me manter serena e passar tranquilidade para  minha família. E penso que, a melhor maneira de atravessar esses dias, que ainda não sabemos quando irão cessar, é desligando a televisão, colocando o smarthphone em modo offline e focando no que se tem para fazer (quem está trabalhando e/ou estudando em casa) ou criando um novo projeto (de vida, de trabalho, de diversão...).
Digo isso porque, infelizmente, o assunto coronavirus tomou conta de praticamente toda a programação televisiva e das mídias sociais. Você liga a televisão, os jornais (ou outra programação) só falam sobre coronavirus, você abre suas redes sociais, são trilhões de postagens sobre coronavirus. Em poucos dias, já aprendemos o que precisamos fazer para nos proteger desse vírus. Então, é só colocar em prática! O resto é discussão sem resultado produtivo, a exemplo de quem é contra ou a favor da campanha "O Brasil não pode parar!", que impulsionou o debate nos últimos dias, no Brasil.
Giovanni Sartori, sociólogo italiano, escreveu um livro intitulado "Homo Videns: televisão e pós pensamento", lançado em 1997 e traduzido em 2001 para o Brasil. Nesse livro o autor chama atenção para o fato de que “o vídeo está transformando o homem sapiens produzido pela cultura escrita em um homo videns no qual a palavra vem sendo destronada pela imagem”. A análise é muito pertinente para os dias atuais, sobretudo em tempos de confinamento, pois é quando tendemos a ficar mais horas diante da televisão e, também, do computador e do smartphone, e não se percebe os efeitos danosos desse veículo de comunicação de massa no desenvolvimento intelectual e afetivo das crianças,  e mesmo dos adultos, atrofiado sua capacidade de compreender e produzir ideias.
Hoje, como é sábado não me dei ao trabalho de levantar cedo. A rotina da semana foi um pouco pesada, pois Isabelle está em período de provas. Então, além de minhas atividades, tenho feito revisão com ela das disciplinas, e depois a acompanho na feitura da prova que é on line. Tudo isso, também é novo para ela e, aos poucos ela vai tentando se adaptar a nova rotina que lhe é imposta nesse período de quarentena.
Aproveitei o dia de hoje para fazer pareceres sobre Reconhecimento de Saberes e Competências de professores da esfera federal que trabalham com educação básica, técnica e tecnológica. Mesmo confinada em casa, a vida não para, precisamos dar prosseguimento no nosso trabalho. E foi olhando o memorial dos professores, todos de Sociologia, que fiquei me perguntando sobre o que poderíamos fazer nesse momento de crise?
Sei que nosso futuro ainda é incerto e não sabemos durante quanto tempo vamos permanecer em quarentena, mas de tudo que aprendi, do que penso e dos valores que carrego comigo, não quero ser apenas mais uma olhando e retratando a vida pela janela. Sei que nossa vida tem um propósito, e quando chegar a hora quero está disposta para FAZER A DIFERENÇA! 

sexta-feira, 27 de março de 2020

DIA 10:
Nesse décimo dia, meus olhos e coração se voltam para Roma. Hoje o Papa, numa cerimônia solitária, diretamente da Basílica de São Pedro, concedeu a possibilidade de Indulgência Plenária para católicos que o acompanharam pelos meios de comunicação do mundo inteiro.
Sabemos que hoje a Itália atingiu o ápice, com quase 1000 mortos, em 24 horas, pela pandemia do novo coronavirus. O mundo todo vem sendo assolado pela pandemia. E com ela, um misto de dor e incerteza tem tomado conta das pessoas.
O Papa, com suas sábias palavras, nos disse: "(...) estamos todos no mesmo barco e somos chamados a remar juntos. Neste mesmo barco, seja com os discípulos, seja conosco agora, está Jesus. (...) A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra- nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força a nossa vida e a nossa comunidade. A ilusão de pensar que continuamos saudáveis num mundo doente, com a tempestade, cai o nosso ego, sempre preocupado com própria imagem e vem à tona a abençoada pertença comum que não podemos ignorar: a pertença como irmãos".
E acrescentou, antes de dar a Benção Urbi et Orbi, que devemos "abraçar o Senhor, para abraçar a esperança", que devemos convidar Jesus a embarcar em nossas vidas, pois Ele é a esperança no meio da tempestade. Nos disse por fim que: temos uma âncora, pois na sua cruz fomos salvos; temos um leme, pois na sua cruz fomos resgatados e temos uma ESPERANÇA, pois na sua CRUZ, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu AMOR Redentor.
A homilía do Papa Francisco acolheu os corações amedrontados pela pandemia e deu esperança de dias melhores. E é nesse tempo difícil, que tem se observado um clamor maior, de qualquer que seja a religião, ou mesmo daqueles que não possuem religião, pela cura da humanidade.
Espero que, após atravessarmos essa tempestade, tenhamos aprendido algo e, do outro lado, saiamos: menos egoístas, mais solidários e humanos.

quinta-feira, 26 de março de 2020

DIA 09:
Hoje resolvi fazer um balanço dos avanços da Covid-19 no Brasil e no mundo, pois além de ficar aqui registrado, também poderemos comparar com os dados dos primeiros dias quando iniciei esse Diário. Mas antes, gostaria de chamar atenção para uma frase dita pela Profa. Dra. Soeli Lemoine, brasileira, que hoje mora na França e tem nos reportado dia a dia sobre o status do novo coronavirus nesse país. Ela disse: "economia se recupera, mortos, nunca mais!" 
Ela estava perplexa, pois em 24 horas morreram 365 pessoas na França. A Itália chegou a registrar em um único dia 793 pessoas mortas em decorrência do coronavirus. E esse é o problema que muitos não tem dado atenção (em especial os defensores unilaterais da economia): a velocidade com que o virus é transmitido de uma pessoa para outra, sobrecarregando a capacidade dos sistemas de saúde de socorrerem suas vítimas.
E o novo coronavirus já alcançou 196 paises, conforme relatado pela ONU na data de ontem. São mais de 500 mil pessoas contaminadas pela doença no mundo. O EUA ultrapassou a China em número de contágios e registrou mais de 85 mil casos, tornando-se o mais novo epicentro da pandemia no mundo.
A situação dos EUA é bastante preocupante, pois o país tem a terceira maior população do mundo (330 milhões de habitantes) e possui focos de dispersão do novo coronavirus de leste a oeste, diferentemente do que aconteceu na China, onde o virus se concentrou mais em Hubei e na Itália, na região da Lombardia.
O número de mortes nos EUA ainda é menor do que da China e da Itália. O país somou 1.177 mortes. A Itália, até recentemente era o epicentro da pandemia no mundo, com 80.539 casos confirmados, ainda possui o maior registro de mortes: 8.165.  A China, com 81.285 casos, registrou  3.287 mortes. Os números também tem crescido na Espanha, que já registrou 56.197 casos e 4.145 mortes.
Há exato um mês, o Brasil registrou o primeiro caso do novo coronavirus. Hoje são 3 mil casos confirmados e 77 mortes. São Paulo possui 1.052 casos confirmados, seguido pelo Rio de Janeiro, com 421 casos. O estado do Ceará está logo na sequência, com 235 casos. Sabemos que estamos só no começo, então a sensação é de muita apreensão e insegurança.
Sabemos que o novo coronavirus um dia será vencido! Mas qual o preço pago nesse processo? Quantas vidas mais serão ceifadas até que isso aconteça? Infelizmente, apesar de toda riqueza gerada e de tanta tecnologia criada, isso ainda é uma incógnita para nós!   

quarta-feira, 25 de março de 2020

DIA 08:
Hoje fiquei me perguntando sobre os impactos sociais do novo coronavirus. O que nos espera ao final dessa pandemia? Definitivamente, parafraseando Heráclito, "não seremos mais os mesmos".
Depois de toda a polêmica provocada pelo pronunciamento do Presidente, na noite de ontem, o vice se manifestou e disse "a posição do governo é uma só: isolamento e distanciamento social. E praticamente todas as autoridades da área de saúde mantiveram suas posições e recomendaram que a população brasileira se mantenha em casa (pelo menos os que podem fazer isso).
Como antropóloga,  quero chamar atenção para o "distanciamento social" e "isolamento social", que muito se tem falado nesse último mês. Acredito que se esteja fazendo uma pequena confusão entre distanciamento físico e distanciamento social.
Ora, com os efeitos da globalização, novas sociabilidades foram construídas. Nunca estivemos tão conectados, como nos dias atuais. Ainda que estejamos no isolamento domiciliar, distante fisicamente dos nossos familiares, amigos, colegas de trabalho, há uma "janela para o mundo", que são nossos computadores, notebooks, tablets e, em especial, nosssos smartphones.
É claro que, nada substitue o calor humano! E depois de atravessar essa pandemia, com certeza teremos aprendido muito, sobretudo a dar valor as pequenas coisas e gestos, como um singelo abraço ou aperto de mão!

terça-feira, 24 de março de 2020

DIA 07:
Conforme os dias passam, sinto-me como se estivéssemos num filme de suspense. A cada dia o número de contaminados aumenta e não conseguimos vislumbrar dias melhores. Apesar de todas as recomendações dos órgãos de saúde e da OMS, nosso país avança na contramão. Hoje houve mais um pronunciamento desastroso do presidente.
Acredito que boa parte da população já compreendeu que o problema não é a taxa de mortalidade causada pelo vírus (o que comparado com outras doenças, se apresenta num percentual bem menor) e sim seu alto índice de transmissibilidade, cuja forma de prevenção é o isolamento domiciliar, como recomendado internacionalmente, tendo em vista que até a presente data não há vacinas e nenhum medicamento para o tratamento direto do covid-19.
Gostaria de escrever, que estamos avançando, mas é triste reconhecer, que os interesses capitalistas têm falado mais alto. Quanto vale uma vida? Aqui, para muitos, ainda se está pesando na balança: manter o ganho (em especial dos empresários) versus resguardar a  saúde (a vida).
Como os interesses econômicos falam mais alto, pouco se discute sobre a maioria de excluídos, que sempre estiveram ai, morrendo de outras doenças, de fome, e que, não terão como se proteger dessa pandemia. Também, pouco se fala dos países africanos, onde o covid-19 já afetou dois terços do mesmos.
De verdade, sonho com o dia em que possamos colocar novamente os pés nas ruas, sentir a brisa agradável no rosto, abraçar nossos familiares e amigos, sem medo e totalmente despidos dos nossos preconceitos e vaidades.

segunda-feira, 23 de março de 2020

DIA 06:
Hoje acordei e, após ler as notícias do dia, começo a ficar ainda mais preocupada com o despreparo do nosso governo em lidar com a epidemia do novo coronavirus. As medidas tomadas pelo governo são mais letais do que o próprio covid-19.
Confesso que venho tentando manter minha saúde mental e até fiquei offline em boa parte do dia, mas as coisas que vem acontecendo atentam contra a inteligência, o bom senso e a fé do mais abnegado brasileiro.
Em outras circunstâncias, iríamos para as ruas protestar, mas estamos em boa parte cumprindo quarentena preventiva. Os tempos estão realmente difíceis por aqui.
Hoje entrei de férias, não por opção, mas pelo estado de calamidade pública que se encontra o país. Traduzi como uma férias do "confinamento". Logo eu, que sempre monto um roteiro e aproveito para conhecer novos lugares, ampliar meu capital cultural, ou revisitar os lugares que gosto.
Nessas férias de julho já estava com viagem programada para Itália, ia passar dez dias com minha filha, desfrutando das maravilhas que esse país oferece (ou melhor, oferecia!). Conforme os dias passavam, vimos nossas chances diminuirem... até que a Itália se tranformou no epicentro da pandemia... e não tardou o virus chegou aqui.
Meu alento é que não estou sozinha! Estou em casa! Muitos gostariam de está, mas não podem, pois precisam trabalhar. Outros nem casa possuem e dependem da solidariedade alheia para sobreviver. Há ainda os que estão distantes de suas famílias, e que por algum motivo, não puderam retornar para seus lares. E assim, seguimos em mais um dia, para quem pode se manter no isolamento preventivo.

domingo, 22 de março de 2020

DIA O5:
Em casa, com minha filha, em isolamento preventivo. Estou fazendo minha parte para diminuir a curva epidêmica. É claro que quando se tem com quem dividir o isolamento, os dias se tornam mais leves e mais alegres, em especial se a companhia é uma criança.
Todo dia inventamos coisas para fazer e também para aprender. Em alguns momentos até esquecemos os motivos que nos fizeram ficar tão juntinhas. O melhor de tudo é receber um "eu te amo!" tão espontâneo e sem pedir nada em troca!
Sei que a internet nos ajuda a nos conectar com aqueles que não podemos falar pessoalmente nesse momento, sobretudo um familiar do nosso convívio diário, mas por outras vezes atrapalha, pois são enxurradas de informações a todo instante e boa parte é desnecessária. Já sabemos o essencial para combater o novo coronavirus. Agora é cada um fazer a sua parte, o resto é perda de tempo! Inclusive gastar horas nas redes sociais!
Precisamos higienizar nossas mentes, ler um bom livro, fazer uma atividade manual, aprender algo novo, ajudar alguém da rua ou do condomínio! Tirar aquele projeto da gaveta e voltar a trabalhar nele. Tem muita coisa que pode ser feito! Existe vida para além das redes sociais.
Quando comecei a pesquisar sobre povos indígenas e viajar para suas aldeias, tive a certeza do que queria fazer como antropóloga. A realidade indígena sempre me fascinou pela sua diversidade, mas também pelo estilo de vida, onde o tempo não é medido como o nosso. Ainda guardo a lembrança de minha última estada em Terra Indígena, no segundo semestre de 2019, para levantar material para biografia de Teapikawa Asurini. Foram dias de profundo aprendizado.
Hoje, para sentir um pouco de paz, deixo meu telefone celular no modo silencioso. Não dá para ler todas as mensagens que chegam, nem quero! Acho que vou começar a adotar #24hoff e deixar apenas meu número de telefone ligado para caso de emergências.
Hoje me despeço, com a seguinte frase: "a vida me afastou fisicamente das pessoas para que eu pudesse me reconectar com meu interior e com aquilo que considero mais importante ❤" (R.F.G.).

sábado, 21 de março de 2020

DIA 04:
Hoje é o dia que fez o Senhor! "Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei. O Senhor é o pastor que me conduz; não me faltará coisa alguma". É com essas palavras, retiradas da liturgia de hoje, que inicio esse post. São dias difíceis, e acredito, é apenas o começo do DESERTO que o Senhor nos convida a participar!
Esse talvez seja uns dos posts mais difíceis de liberar para publicação. Pois, quem me conhece um pouco, sabe o quanto eu sou reservada para falar das minhas opções religiosas. Na verdade, a ideia desse blog é bem antiga, mas sempre me faltou coragem para iniciá-lo.
Os sábados para mim, sempre são especiais, pois é o dia que dedico ao Senhor. Há três anos, no mês de março, tive a oportunidade de ser apresentada ao Caminho Neocatecumenal e de lá para cá tenho vivido uma experiência única de intimidade com Deus! E não adianta pesquisarem para saber o que é o Caminho, pois só sabe, verdadeiramente, quem o vive (não acreditem em tudo que vêem na internet).
E foi por meio do Caminho que visitei pela primeira vez a Itália, por ocasião do Jubileu do Caminho Neocatecumenal em Roma, no ano de 2018. Evento que reuniu catecúmenos do mundo inteiro, cerca de 120 mil pessoas de 134 nações. No nosso encontro com o Papa Francisco, ele nos disse: "Cinquenta é um número importante na escritura: no quinquagéssimo dia, o Espírito do Ressuscitado desceu sobre os Apóstolos e manifestou a igreja no mundo."
Foi uma das viagens mais lindas que já fiz na vida. Andar pelas ruas de Roma, conhecer sua história e participar do encontro em Tor Vergata, com o Papa e irmãos catecúmenos do mundo inteiro foi uma experiência indescritível. Hoje assisto pelos noticiários, a trajédia pela qual passam os italianos e vejo, com tristeza, os lugares por onde passamos, na ocasião tão cheios de vida, agora vazios e com aspecto mórbido.
Há exato um mês a Itália registrava sua primeira morte pelo novo coronavirus. Hoje já soma quase 5 mil mortos. Um cenário que jamais se teria imaginado. O Brasil segue em ritmo crescente: são mais de mil casos positivos e 18 mortos pelo covid-19.
Penso que o Senhor nos providenciou esse DESERTO em pleno Período Quaresmal para que possamos atravessar, enfrentar nossos medos, reconhecer nossa pequenez diante de Deus e nos converter! Hoje nos é pedido o isolamento social, a quarentena, e que nós possamos resistir e permanecer no EXÍLIO, pois sei o quanto é difícil a "igreja" que somos nós, não poder se reunir, dar as mãos e clamar a Deus numa única voz.
E por fim, qualquer que seja o culto ou a religião que vocês (leitores) sigam, saibam que têm meu respeito sempre. Que o Senhor nos reserve dias melhores e nos dê serenidade para atravessar esse deserto.

sexta-feira, 20 de março de 2020

DIA 03:
Hoje os noticiários anunciaram que a partir desta data o Brasil tem contágio sustentado (comunitário). Senti um calafrio! Em 21 dias foram 291 casos, contra 3 na Itália, 2 na Espanha e 11 na França, contabilizados num mesmo período de tempo. É claro que é preciso considerar que a Itália é um dos países com mais idosos na Europa e que cada país apresenta suas especificidades.
Na Itália, o coronavirus explodiu a partir do 27° dia e de lá para cá se transformou no epicentro da epidemia na Europa. Na Espanha, onde a situação caminha para um cenário italiano, esse aumento ocorreu a partir do 39° dia. O Brasil está no 23° dia e o número de casos cresce em rítmo acelerado, capitaneado pelo estado de São Paulo e seguido pelo Rio de Janeiro.
No Pará, foi anunciado o segundo caso positivo e a pessoa contaminada teve passagem pelo Rio de Janeiro. O cenário é desanimador! A sensação é de angústia, pois temos que nos preparar para enfrentar um inimigo invisível.
Na verdade, estamos sendo testados em todos os nossos limites! A pressão psicológica é muito grande! Mas vejo que estamos aprendendo sobre as "pessoas". Como elas agem quando são coagidas; quando são obrigadas a rever suas prioridades; como se comportam quando são convidadas ao "isolamento social"...
Nestes dias, fiquei refletido sobre duas palavras, que até há um tempo estavam mais em nível de discurso, e, hoje, materializam-se nas ações das pessoas, na seguinte proporcionalidade: EGOÍSMO > SOLIDARIEDADE. E assim transparece a verdadeira natureza humana.
Quando as pessoas vão se dar conta que, na situação em que estamos vivendo, "cada UM é responsável por TODOS" (Antoine de Saint Exupery)?

quinta-feira, 19 de março de 2020

DIA 02:
Quando o universo nos ensina a esperar, pensamos no bem de todos, e cresce o amor na humanidade.
"Somos todos habitantes de um mesmo navio". Foi com essa frase de Antoine de Saint Exupery, que escolhi iniciar o dia.
Em minhas aulas, sempre falo nas novas sociabilidades do mundo na era da globalização e da internet. De como as pessoas mudaram suas rotinas, seus comportamentos e suas formas de se comunicar com o "outro", abrindo mão do "face to face" para ficar horas e horas nas redes sociais. Mas, eis que uma pandemia invade nossas vidas e nos coloca o isolamento social como um imperativo ético. O ser humano é mesmo uma caixa de surpresas!
Nesse segundo dia, precisei ir ao médico para uma consulta de rotina e para minha surpresa, tinha mais gente na rua do que antes das medidas adotadas pelo Governo  de suspensão de aulas para que as pessoas ficassem em casa para conter a propagação do novo coronavírus.
Enquanto a Itália ultrapassa mais de 3 mil mortos vitimados pelo covid-19, daqui do outro lado do Atlântico, parece que a ficha não caiu para muitos! As pessoas, apesar de todas as recomendações do Ministério da Saúde, das enxurradas de informações disponibilizadas pelos canais televisivos e despejadas nas redes sociais, seguem suas vidas, em muitos casos, como se nada tivesse acontecido.
O que seria uma oportunidade para as pessoas potencializarem os contatos via mídias sociais, parece que teve um efeito reverso! Agora as pessoas querem se ver! Querem se falar, se possível pessoalmente!
Mas, também, tem aqueles que realmente acreditam nos efeitos desastrosos dessa pandemia e que agora, é como um "parente" que pode chegar na nossa casa sem avisar. Isso gerou uma correria aos supermercados, sobretudo, nos centros da cidade e, dentre os que tem poder aquisitivo para estocar comida, material de higiene e outros itens domésticos. Foi onde se tem se percebido a faceta mais egoísta do ser humano. É muito triste, ver que enquanto uns correrem para se abastecer, outros não conseguem nem o suficiente para garantir a alimentação diária de suas famílias.
Infelizmente, estamos todos no mesmo navio e dessa vez teremos que nos ajudar mutuamente, pois do contrário perderemos pessoas queridas, familiares e, o principal, nossa própria humanidade. 

quarta-feira, 18 de março de 2020

DIA 01:
Decidi escrever esse diário, pois acredito que como antropóloga, devemos usar nossos conhecimentos para ajudar as pessoas. E se tem uma coisa que aprendi com a Antropologia foi que não importa o quanto somos diferentes, temos que respeitar e nos colocar no lugar do "outro".
Hoje poderia ter sido um dia comum, mas não foi. Acredito que nunca viveremos uma experiência tão singular e devastadora como essa. Nas redes sociais, mundo a fora: um cenário de morte e horror nunca antes visto!
Por estas terras, até o meio dia nenhum caso confirmado do novo coronavirus. Mas as aulas nas escolas foram suspensas de vésperas. Houve quem achasse a medida precipitada, mas considerei bem sensata diante das estatísticas de SP e RJ. Porém, não tardou e por volta das 15h foi anunciado o 1° caso no Pará.
De início, foi também, para mim o primeiro dia de isolamento, pois minha filha ficou resfriada e eu não pude ir ao trabalho, como de praxe. Como faltavam algumas coisas em casa, resolvi ir ao supermercado e levei um susto! Parecia que todo mundo havia decido fazer compras. Eram filas enormes e carrinhos abarrotados de compras...
Começou a correria para estocar mantimentos e a cena que só havia visto pelos noticiários e pela internet, agora se materializava diante de mim! Infelizmente, é uma realidade muito triste, pois num país como o nosso com altas taxas de desigualdades sociais, nem todas as pessoas poderão comprar alimentos para guardar em casa, nesse tempo austero.
Ainda precisamos aprender muito e encontrar a humanidade perdida dentro de nós mesmos!