sexta-feira, 15 de maio de 2020

DIA 59:
Hoje fique pensando na (in)sustentável leveza do ser. Uso esses termos parafraseando Milan Kundera, escritor theco, do romance "A insustentável leveza do ser", publicado em 1982 e traduzido para mais de 30 línguas e editado em vários países. O romance é protagonizado por Tereza e Tomas, Sabina e Franz. Cada um deles experimenta, de maneira peculiar,  o peso insustentável que baliza a vida, um permanente exercício de reconhecer a opressão e tentar amenizá-la.
Li esse romance quando era bem jovem, mas diante dos acontecimentos que se impõem a nossas vidas no momento presente, não pude deixar de fazer essa associação. O momento histórico do livro é o período da guerra fria e o cenário é Praga, no centro da Europa, especificamente 1968, quando acontece a "Primavera de Praga". O autor se ampara em filósofos como Nietzsche e Parmênides para inserir reflexões sobre o que é "ser um espírito livre".  Nosso cenário? O Brasil. Os protagonistas? Todos nós! O enredo? Em construção...
Quem conhece o romance, sabe que ele foi escrito no exílio por Milan Kundera e que possui fortes críticas ao regime comunista. E antes que me perguntem, adianto, o que sempre esclareço em minhas aulas de Sociologia: sou contra qualquer regime político totalitário, seja ele de direita ou de esquerda, como já coloquei em outras postagens, nesse Diário. Portanto, o questionamento presente no romance: "um imbecil sentado no trono está isento de toda responsabilidade pelo simples fato se ser um imbecil?" bem pode ser aplicado a quem está, hoje, posto no cargo mais elevado de nosso país.
O que me chama atenção no romance é a reflexão filosófica sobre o ser o humano, sobre o que é "leve" e "pesado" nos nossos nossos relacionamentos; o que faz da nossa rotina algo leve ou insustentável; como nos apoiamos nos outros; quem somos e nos comportamos quando estamos sozinhos, com medo; como podemos enxergar e enfrentar a vida de modos diferentes, diante das adversidade; ou ainda, como resistir e não desistir a cada tempestade.
E trazendo a discussão para os aspectos do "positivo" e "negativo", "leve" e "pesado" (Parmênides), meu grupo de whats up de condomínio, que no início da pandemia muito ajudou, sobretudo quando apareceram os primeiros casos de covid-19 por aqui, agora mais parece uma arena com "gladiadores" em combate, uns contra os outros. O motivo: quem é contra ou a favor do lockdown; quem apoia ou não apoia as decisões do presidente; quem é a favor ou contra o uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19... subscrito há uma enquete: quem é a favor da vida e quem é a favor da economia. As discussões tem se tornado "insustentáveis"... e como sabemos, esses desentendimentos virtuais saltam para o campo concreto do  "face to face", colocando-nos mais um problema, da ordem dos interpessoais, para se juntar aos da crise sanitária em que estamos vivendo.
Outra coisa que me chama atenção é sobre o "eterno retorno" (Nietzsche) que podemos associar com a repetição, hoje, do que vivemos no passado com a gripe espanhola. Conhecida também como gripe de 1918, surgiu com uma vasta e mortal pandemia do virus influenza. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920 infectou 500 milhões de pessoas, um quarto da população mundial e é tida como uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. No Brasil, foram cerca de 350 mil pessoas infectadas. Naquela época, também se minimizou os efeitos e gravidade da doença; que a moléstia teria sido uma criação dos alemães; houve pouco investimento em pesquisas para encontrar a vacina; houve ataque e censura à imprensa e; perda de tempo procurando culpados, em detrimento de união para se salvar vidas.
Parece que estamos condenados a repetir os erros do passado... enquanto o ser humano insiste colocar sua vida (e de outros) na "balança" para, então, tomar suas decisões... 😔

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