Depois de mais de 80 dias e curva ascendente da covid-19, no país, o governo do estado do Pará publicou Decreto permitindo abertura dos shoppings e salões de beleza a partir da presente data. Como continuo em trabalho remoto, permaneço em isolamento, mas hoje precisei ir até a casa da minha mãe para ver como ela estava. Para minha surpresa, cheguei no estacionamento do meu prédio e vi somente a metade dos carros... nas ruas parecia um dia normal, como outro qualquer.
Acabou o lockdown e as pessoas parecem ter esquecido que ainda não temos uma vacina para o vírus e que até recentemente em nossa cidade não tinha leitos, nem respiradores para atender todos os pacientes de covid-19, sobretudo com insuficiência respiratória aguda grave. Quando os shoppings abriram se formaram aglomerações e filas enormes de assustar "aqueles que sentiram na pele" os efeitos da doença em sua forma grave, os que perderam seus entes queridos e a equipe de saúde, na linha de frente de combate ao novo coronavírus.
Quem passou por essa experiência não consegue esquecer! E concerteza não foi para filas de shoppings...
Como memória, deixo o relato de uma profissional da saúde na linha de frente de combate à covid-19:
“Paciente internada conosco há alguns dias, sempre simpática e lutando contra o covid. Perdeu o marido semana passada, que também estava internado conosco. Nem pôde se despedir... Ontem o seu quadro piorou, estava muito cansada e ao ser comunicada que seria intubada, pediu ao médico: Não, doutor, por favor! Não faça isso! Eu sei que eu não voltarei.
Nesse momento, agradeci por estar de máscara e face shield. Assim, ninguém pode ver as lágrimas que escorriam.
Tive que sair, andar pelo corredor sem rumo, respirar e voltar.
Penso que uma das piores coisas, deve ser ter consciência que em breve você poderá morrer e não poderá estar mais com quem ama. Como tenho medo disso.
Retornei... O paciente ao lado chorava.
Ela pediu o celular pra ligar pra filha. Ligou no viva voz. Do outro lado, a filha em desespero, rezando, pedindo a Deus com toda força pela vida mãe. Mais uma vez não aguentei... Pode ter sido o último “encontro” dessa mãe com essa filha, sem um abraço, sem o conforto de estar com quem ama.
Demos a mão pra ela, rezei em silêncio, pedimos para confiar pq faríamos o melhor.
Mais tarde... o paciente da mesma enfermaria, internado também já alguns dias, agravou. Estávamos ao lado dele, fazendo tudo que podíamos para estabilizar sua pressão.
Ele ainda consciente, perguntou: Posso dormir? Estou com medo de dormir e não acordar.
Respondi: Pode relaxar, estaremos aqui cuidando de você.
Ele disse: eu sei que eu vou morrer essa noite! Realmente, ele sabia.
Aquele que chorou pela paciente ao lado, agora fechou o olho para não ver o da frente. E com certeza estava pedindo a Deus para que não fosse o próximo.
É inexplicável o que estamos vivendo. Jamais seremos os mesmos. Que vírus maldito!”
Relato de uma profissional de saúde na linha de frente."
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